O amor fala. Transborda em confidências, poemas, declarações, telefonemas, cartas, tudo o que produz voz e texto, tudo o que parece ser capaz de revelar seu mistério e acalmar nossos sentidos.
Desde que o primeiro ser humano foi atingido pelo amor-paixão, sentiu necessidade de dar nome ao fenômeno que o deixava sem palavras. Mas logo amante percebeu que o nome não bastava. Era preciso compreender o amor. E vieram as metáforas (como se o chão fugisse debaixo de meus pés, como se meu coração saltasse pela boca, como se o céu se partisse em mil pedaços...). Mas compreender também não bastava, faltava o outro, aquele que despertava tão agradável desespero. E nasceu a fala amorosa. Mas nem mesmo o outro bastava. Sua presença só provocava... Mais amor ainda.
Ao juntar violentamente as sensações do corpo com as da alma, como dois fios desencapados, o amor apaixonado nos coloca diante de um enigma. Não sabemos como lidar com ele. E então precisamos, desesperadamente, enunciá-lo. Para compreendê-lo, para comunicá-lo, para alimentá-lo e até mesmo para acabar com ele. Não existe amor mudo – o amor não se completa no outro, mas na palavra.
ROSA AMANDA ATRAUSZ